O Brasil tem uma meta ambiciosa: reduzir emissões de carbono pela metade até 2030 em comparação a 2005 e atingir neutralidade climática até 2050. Outros países têm metas parecidas (ou ainda mais ousadas). Uma das grandes apostas para chegar nesse resultado é a eletrificação das frotas. Em outras palavras: veículos elétricos.
Mas, por aqui, os eletrificados não são a única saída para a mobilidade sustentável. Além de possuir uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o Brasil é líder global na produção e uso de etanol de cana-de-açúcar, um biocombustível com baixa emissão de carbono.
Afinal, qual dos dois polui menos: um carro elétrico ou um carro movido a etanol?
A resposta é complexa – e o Olhar Digital destrinchou o assunto.
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ToggleA falácia do carro elétrico ‘zero emissões’
O debate entre etanol e carros elétricos acontece em um momento de forte crescimento da eletrificação no Brasil. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), já são mais de 780 mil veículos eletrificados em circulação no país, incluindo totalmente elétricos e híbridos.
O crescimento não é só por aqui. O relatório Electric Vehicle Outlook, da BloombergNEF, estima que foram cerca de 22 milhões de veículos elétricos e híbridos plug-in vendidos no mundo no ano passado, um aumento de 25% em relação a 2024. Segundo o estudo, eles correspondem a um quarto de todos os veículos vendidos globalmente no período.
Mas a ideia de que um carro elétrico é um “carro de zero emissões” é uma falácia. É o que defende Fernando Pinto, diretor de tecnologia e inovação da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ele chama atenção para uma questão importante: a matriz energética faz toda a diferença. Basicamente: de onde vem a energia que recarrega os veículos? Se ela vier de fontes renováveis, o carro elétrico contribui na redução das emissões de carbono. Já se a energia vier de fontes poluentes, o benefício ambiental diminui.
Como é gerada a energia que vai parar na bateria? Eu não sei. Se ela foi gerada através de uma hidrelétrica, ajudou na redução das emissões de carbono. Agora, se tiver usado uma termelétrica para gerar a energia, eu vou ter tido um ganho em termos de emissões.
Fernando Pinto, diretor de tecnologia e inovação da Escola Politécnica da UFRJ
Nesse quesito, o Brasil leva vantagem. Dados de 2024 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) indicam que, dos 200 GW de geração alcançados no país, 84,25% são de fontes renováveis e 15,75% de fontes não renováveis. Entre as fontes renováveis, a agência destaca o top 3 com energia hídrica (55%), eólica (14,8%) e biomassa (8,4%).
Ou seja, por aqui, a eletrificação é impulsionada principalmente por fontes de energia limpa, o que de fato contribui para a redução nas emissões.
Mas não é o caso de todos os países.
De acordo com o Electric Vehicle Outlook 2025, a China corresponde a dois terços das vendas globais de modelos eletrificados. E, apesar dos investimentos em energias limpas, a matriz energética atual é majoritariamente baseada no carvão (60,9% do total), segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Nesse caso, a eletricidade que abastece os EVs não é limpa.
O mesmo vale para a Europa, que vem logo na sequência dos chineses no ranking de vendas. Por lá, a matriz energética é abastecida principalmente por petróleo e derivados (33%), gás natural (24%) e carvão e derivados (12%).
Resumindo: um carro elétrico recarregado no Brasil, na China e na Europa tem níveis de emissões completamente diferentes, justamente por causa da fonte de onde vem a energia.
Etanol, o combustível brasileiro
No Brasil, a conta fica ainda mais complexa, já que temos outra vantagem no cenário mundial: uma cadeia produtiva consolidada de biocombustíveis. Mais especificamente, o etanol.
Trata-se de um biocombustível de matéria-prima vegetal, produzido principalmente a partir da fermentação de açúcares de vegetais, como cana-de-açúcar e milho. Diferentemente da gasolina e do diesel, ele não depende do petróleo, carvão ou de outras fontes poluentes. E como as plantas absorvem dióxido de carbono durante o crescimento, parte das emissões geradas na queima do combustível é compensada ao longo do ciclo produtivo.
Quando a tecnologia surgiu, ainda tinha alguns desafios que limitavam sua adoção. Por exemplo, era mais lento do que a gasolina na hora de dar partida no frio. Além disso, o álcool é corrosivo a certos tipos de metais, o que poderia gerar uma preocupação adicional aos motoristas.
Mas essas limitações ficaram para trás. Para Fernando Pinto, o etanol já está bem desenvolvido do ponto de vista operacional e ambiental. Os problemas foram resolvidos, tornando o combustível uma opção segura para diminuir emissões no país.
Para melhorar, ele ainda é mais barato que a gasolina e o diesel, mesmo considerando o rendimento menor.
Na prática, isso significa que um carro flex abastecido com etanol pode emitir menos gases de efeito estufa do que um carro elétrico carregado em locais em que a eletricidade vem de fontes poluentes, como na Europa ou na China.

Carro movido a etanol x elétrico em números
Um estudo de 2023 realizado pela Stellantis colocou a rivalidade entre carros elétricos e etanol à prova.
A pesquisa simulou o mesmo veículo percorrendo 240,49 quilômetros utilizando quatro fontes de energia diferentes: etanol (E100), gasolina (E27), 100% elétrico abastecido na matriz energética brasileira e 100% elétrico abastecido na matriz energética europeia.
Em seguida, o estudo avaliou as emissões de cada um. A metodologia considerou não apenas a emissão de carbono associada à propulsão, mas também as emissões correspondentes a todo o ciclo de geração e consumo da energia utilizada.
Os resultados foram os seguintes:
Quanto menor o número, menos o veículo poluiu.
Ou seja, considerando todo o ciclo de emissões, o carro movido a etanol é menos poluente do que os veículos elétricos a bateria recarregados na Europa. Já o elétrico recarregado no Brasil é o mais limpo de todos, superando o etanol.
Na época do estudo, Antonio Filosa, presidente da Stellantis para a América do Sul, destacou a importância de ambas as modalidades no Brasil:
Os resultados comprovam as vantagens comparativas da matriz energética brasileira, principalmente a importância dos biocombustíveis para uma mobilidade mais sustentável.
Antonio Filosa, presidente da Stellantis para a América do Sul

Então quem vence?
A resposta depende do que está sendo medido – e onde.
- Se a avaliação for apenas no contexto brasileiro, os carros elétricos abastecidos pela matriz elétrica nacional têm a menor pegada de carbono. Nesse caso, o etanol polui mais;
- Já se a avaliação considerar regiões com matriz energética derivada de fontes fósseis (como gás natural e petróleo), como a Europa e China, o etanol polui menos do que o elétrico;
- Em ambos os casos, os eletrificados e os carros movidos a etanol poluem menos do que modelos movidos a gasolina.
No geral, especialistas defendem que o Brasil não precisa escolher entre um ou outro. O país tem condições de combinar eletrificação e biocombustíveis para reduzir emissões sem abrir mão de uma infraestrutura já consolidada.
Para Marcio Severine, Conselheiro e Diretor de Infraestrutura da ABVE, e Sócio Diretor da MOBILITAS Tecnologia e Energia, é sobre a diversificação: permitir que o consumidor escolha o que mais faz sentido para ele.
Leia mais:
- Carros elétricos: a carta na manga do Brasil e o que pensa cada montadora
- Por que ninguém fabrica carro 100% a etanol?
- Qual a data de validade da gasolina e do etanol?
Fabio Delatore, Professor das áreas de Sistemas de Controle e de Eletrônica Automotiva e propulsão elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, destaca a vantagem brasileira nesse sentido:
Tem solução para tudo e quem vai ser beneficiado é o meio ambiente, porque nos dá soluções novas. O Brasil tem o etanol, biometano, biodiesel… é diferente de outros países que recorrem 100% à eletrificação.
Fabio Delatore, Professor das áreas de Sistemas de Controle e de Eletrônica Automotiva e propulsão elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia
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