Existe uma pergunta que perseguimos com insistência quase supersticiosa. Ela aparece nas entrevistas de pessoas como Laura Cardoso, como exemplo de quem passou dos noventa lúcida e ativa, nas reportagens sobre as chamadas zonas azuis, nos vídeos sobre a rotina matinal de gente bem-sucedida. A pergunta é sempre a mesma: qual é o segredo. E a expectativa embutida nela também: que exista um segredo, que ele seja transmissível, e que caiba em uma lista de itens.
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O problema é que a resposta quase nunca serve. Quem viveu muito costuma responder com aquilo de que se lembra, e não com aquilo que funcionou, porque ninguém tem acesso ao experimento de controle da própria vida. E nós, que perguntamos, saímos com a sensação de ter recebido pouco. Talvez a frustração diga menos sobre quem responde e mais sobre a pergunta que insistimos em fazer.
Foi diante de uma pergunta desse tipo, com noventa anos recém-completados, que Laura Cardoso deu uma resposta curta e desconcertante, publicada pela revista IstoÉ na seção de frases da edição 2498. A atriz morreu nesta segunda-feira (17) aos 98 anos, e a declaração voltou a circular.
Procuro viver bem o hoje, tanto comigo quanto com os outros. Mas não posso dar a receita porque não sei muita coisa.
Quantas das suas decisões desta semana foram tomadas pensando no hoje?
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ToggleO que essa declaração ensina sobre longevidade
A frase tem duas metades, e a segunda é a que quase ninguém lê. A primeira descreve uma prática: viver bem o dia, e viver bem com os outros. A segunda recusa transformar essa prática em método. Ela não diz que não existe receita, diz que ela não pode dar a receita, porque não sabe muita coisa. É uma distinção fina e importante. Uma atriz com mais de oitenta anos de carreira e mais de sessenta papéis em novelas teria autoridade de sobra para prescrever qualquer coisa. Ela recusou a autoridade justamente no ponto em que ela seria mais fácil de exercer.
A ilusão da fórmula e a sabedoria de quem admite não ter uma
O gênero de conteúdo sobre longevidade funciona ao contrário disso. Ele parte do resultado, alguém que viveu muito, e reconstrói uma causa a partir dos hábitos que a pessoa relata. O procedimento é confortável e frágil: outras pessoas fizeram exatamente as mesmas coisas e não chegaram lá, e essas não aparecem em reportagem nenhuma.
Você provavelmente já leu que o segredo é a dieta, o vinho tinto, a caminhada diária, a fé, a família por perto, dormir cedo. Cada uma dessas listas foi montada olhando para trás. Ao dizer que não sabe muita coisa, Laura Cardoso não estava sendo modesta por educação. Estava descrevendo com precisão o que qualquer pessoa honesta sabe sobre a própria vida, que é o quanto dela não foi escolha.
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O que a trajetória dela mostra sobre continuar
Laurinda de Jesus Cardoso nasceu em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses. Entrou para a Rádio Cosmos aos quinze anos, fazendo radionovela, e estreou na televisão em 1952, na TV Tupi, no programa “Tribunal do Coração”. Chegou à Globo em 1981 e passou pelas produções que atravessaram gerações de público, entre elas “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Explode Coração”, “Caminho das Índias”, “Gabriela” e “O Outro Lado do Paraíso”.
A última participação em novela foi em 2019, em “A Dona do Pedaço”. Depois disso ela seguiu trabalhando, com destaque para o protagonismo no filme “Dona Rosinha”, e nunca falou em aposentadoria. Em nenhum momento dessa trajetória aparece um plano de longo prazo formulado antecipadamente. Aparece uma sucessão de trabalhos aceitos, um de cada vez.







Três coisas que a resposta dela sugere
- Presença é uma prática, não um traço: viver bem o hoje é algo que se faz, e portanto pode ser feito hoje mesmo, sem preparação.
- A relação com os outros entra na conta: ela não separou o próprio bem-estar do convívio, e mencionou os dois na mesma frase.
- Recusar a receita também é uma resposta: admitir que não se sabe protege quem pergunta de aplicar uma fórmula que nunca foi testada.
Conclusão
Ela deixou mais de sessenta personagens e uma resposta de duas frases que se recusa a virar método. É pouco para quem procurava uma fórmula. E é bastante para quem estava disposto a reparar que ela falou apenas do dia em que estava.



