Existe um cálculo que quase ninguém faz, porque o resultado é desagradável e está explícita nesta frase de Sêneca. Some as horas de uma semana comum gastas em deslocamento, em reuniões que poderiam ser mensagens, em rolagem de tela sem destino, em fila e em espera de resposta. Depois some as horas em que você esteve inteiro no que estava fazendo. As duas contas usam a mesma unidade e medem coisas diferentes.
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Sêneca abre “Sobre a Brevidade da Vida” recusando a queixa mais comum sobre o assunto. Para ele, o problema não é a vida ser curta. É que se desperdiça muito dela. A partir daí ele faz uma operação que muda a conversa inteira: separa duas palavras que costumam andar coladas e mostra que elas não medem a mesma coisa.
A parte da vida que realmente vivemos é pequena. Pois todo o resto da existência não é vida, mas apenas tempo.
A distinção continua funcionando. No profissional que trabalha doze horas e não lembra de nada do que fez. Em quem passa o jantar inteiro na mesa e a atenção inteira no celular. Nas férias planejadas durante meses e vividas atrás de uma câmera. Em todos esses casos o relógio andou normalmente. O que não aconteceu foi presença, e presença é a única coisa que o relógio não registra.
A passagem está no capítulo 2 do ensaio, logo depois de uma lista implacável de desperdiçadores: o avarento insaciável, o ocupado com trabalhos supérfluos, o embriagado, o entorpecido pela inércia, o que vive suspenso do julgamento alheio, o que persegue lucro por todas as terras e todos os mares. Vale reparar em um detalhe do latim que quase nenhuma tradução preserva. Sêneca introduz a primeira sentença dizendo que não duvida ser verdadeiro aquilo que foi dito, à maneira de um oráculo, pelo maior dos poetas. Ele está citando alguém que não nomeia. A segunda sentença é que é dele, acrescentada como conclusão própria.
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A frase não é manifesto contra trabalho nem elogio da desaceleração, e essa é a leitura mais comum entre quem a compartilha. A lista do capítulo 2 condena tanto o indolente quanto o ambicioso, tanto quem torpe na inércia quanto quem se esgota atrás de reconhecimento. O critério não é fazer mais ou fazer menos. Convém lembrar, aliás, que o ensaio foi endereçado a Paulino, encarregado do abastecimento de trigo em Roma. Sêneca escreve para um administrador ocupadíssimo e não pede que ele largue o cargo.
Vale refazer o cálculo do começo com a distinção na mão. A pergunta não é quantas horas você teve nesta semana, porque esse número é igual para todo mundo. É quantas delas você conseguiria descrever amanhã sem consultar a agenda.
Frase do dia do Estoicismo: ‘Se você quer escapar do que o atormenta, não precisa estar em outro lugar, mas ser uma pessoa diferente’ – a reflexão de Sêneca sobre mudança



