A frase de Immanuel Kant circula em perfis de maternidade, em posts sobre disciplina positiva e em discussões sobre quadro de estrelinhas na geladeira. Quase sempre aparece cortada no mesmo ponto, e o corte não é inocente. O que fica de fora é justamente a parte em que Kant explica por que aquilo importa, e sem ela a observação vira palpite sobre educação infantil em vez de argumento sobre formação moral.
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O tema não é disciplina. Kant está tratando da diferença entre alguém que se comporta bem e alguém que entende por que aquilo é certo. São coisas que produzem o mesmo resultado visível durante um bom tempo, e depois deixam de produzir.
Se você castigar uma criança por ser má e a recompensar por ser boa, ela fará o que é certo apenas pela recompensa; e quando ela sair para o mundo e descobrir que a bondade nem sempre é recompensada, nem a maldade sempre punida, vai se tornar um adulto que só pensa em como se dar bem, e faz o certo ou o errado conforme encontra vantagem para si.
O corte popular para na primeira vírgula grande. A continuação é onde está o raciocínio inteiro, e ele é uma previsão em três tempos. Primeiro, a criança aprende a associar bom comportamento a benefício. Segundo, ela cresce e descobre que o mundo adulto não mantém essa contabilidade, porque gente honesta se dá mal e gente desonesta prospera com frequência desconfortável. Terceiro, sem a recompensa que sustentava o comportamento, o comportamento não tem mais razão de existir. Kant não está dizendo que a criança se torna má. Está dizendo que ela se torna calculista, o que é outra coisa e mais difícil de perceber.
Vale registrar de onde vem o texto. “Sobre a Pedagogia” não é livro que Kant escreveu para publicar. Foi montado por Friedrich Theodor Rink, aluno dele, a partir de anotações das aulas que o filósofo deu na Universidade de Königsberg, e publicado em 1803, um ano antes da morte de Kant. O material é dele, a organização é de outra pessoa. Isso não invalida a passagem, mas explica por que o tom é mais direto e menos técnico que o das obras que ele mesmo preparou.
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O conceito por trás disso tem nome no próprio Kant e é o eixo da ética dele. Uma ação só tem valor moral quando é praticada por dever, isto é, porque a pessoa reconhece que aquilo é certo, e não por inclinação, medo ou interesse. Ação correta feita pelo motivo errado continua sendo ação correta, e Kant não nega isso. Ele apenas recusa chamá-la de moral, porque ela depende inteiramente de as circunstâncias continuarem favoráveis.
Nada disso significa que elogio e consequência devam desaparecer da criação de filhos, e o próprio texto de pedagogia discute punição com bastante detalhe. O alvo de Kant é mais estreito: o sistema em que a recompensa é a única explicação oferecida. Explicar por que uma regra existe custa mais tempo do que oferecer um prêmio, e o retorno demora anos a aparecer. É provavelmente por isso que a frase segue atual dois séculos depois.
Você pode gostar de ver também a frase do dia do Estoicismo: ‘Se você quer escapar do que o atormenta, não precisa estar em outro lugar, mas ser uma pessoa diferente’ – a reflexão de Sêneca sobre mudança e frase do dia da Filosofia: “Eu tinha três cadeiras em minha casa; uma para a solidão, duas para a amizade, três para a sociedade”.



