Existe uma explicação que aparece toda vez que alguém se destaca em alguma coisa. Ela vem em forma de elogio e funciona como encerramento de conversa: a pessoa tem dom. Nasceu com aquilo. Puxou ao pai, à mãe, a um tio que tocava violão. O elogio é sincero e tem um efeito colateral que ninguém pretende, que é dispensar qualquer investigação sobre o que a pessoa efetivamente fez durante anos.
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Albert Einstein foi confrontado exatamente com essa explicação e recusou. Em 1952, o escritor suíço Carl Seelig, que preparava uma biografia dele, perguntou por carta se o talento científico do físico vinha da linhagem paterna e o musical, da materna. A pergunta pressupunha que a resposta estivesse na herança. A réplica de Einstein não corrigiu os ramos da família. Descartou a árvore inteira.
Não tenho talentos especiais. Sou apenas apaixonadamente curioso.
A recusa continua incômoda hoje. Nas escolas, quando um aluno é rotulado cedo como bom em exatas e o rótulo se transforma em profecia nos dois sentidos. Nas empresas, na diferença entre reconhecer um perfil e explicar um resultado por ele. Nas redes, onde a biografia de qualquer pessoa bem-sucedida é reescrita retroativamente como sinal precoce de genialidade, com a infância dela recontada como prenúncio.
O detalhe da correspondência importa para a leitura. A frase não é aforismo pensado para circular, é resposta a uma pergunta específica, escrita em carta particular, e está catalogada no arquivo Einstein sob o registro 39-013. Vale saber também que ele repetiu a ideia no ano seguinte, em carta a outro correspondente, o que indica convicção e não frase de ocasião. Em outro texto ele descreveu o próprio percurso de maneira ainda menos lisonjeira, sugerindo que só passou a se perguntar sobre espaço e tempo já adulto, quando uma criança comum já teria abandonado o assunto.
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A frase não é modéstia, e essa é a leitura mais frequente e a menos interessante. Einstein não estava negando competência nem pedindo desculpas por ter feito o que fez. Ele estava substituindo uma explicação por outra: onde Seelig via herança, ele apontava um traço de comportamento, a disposição de continuar perguntando depois do ponto em que a pergunta deixa de ser socialmente aceitável. Também não é receita. Ser curioso não produz relatividade, e nada no texto sugere que produza.
O que sobra é uma pergunta melhor do que a do biógrafo. Em vez de investigar de quem alguém herdou o que sabe, vale investigar sobre o que essa pessoa continuou perguntando depois que todo mundo ao redor já tinha achado a resposta suficiente.
Frase do dia de Albert Einstein: “Eu nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar” – a reflexão do físico sobre antecipação



