é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante”

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Retrato fotográfico de Nietzsche em preto e branco,

Poucas frases de filosofia circulam tanto em tatuagem, legenda e capa de caderno quanto esta. O motivo é evidente: ela parece autorizar a bagunça interior de quem a compartilha, transformando confusão pessoal em matéria-prima criativa. É uma leitura reconfortante, e o parágrafo em que a frase aparece não a permite.

A cena é o prólogo de “Assim Falou Zaratustra”, publicado por Nietzsche entre 1883 e 1885. O personagem desceu da montanha e fala a uma multidão reunida na praça de uma cidade. Ele não está oferecendo conselho de vida. Está tentando convencer aquelas pessoas de que existe algo além do que elas são, e percebendo, ao longo do discurso, que ninguém ali entende do que ele fala.

“Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: ainda tendes caos dentro de vós. Ai de vós! Chega o tempo em que o homem não dará mais à luz estrela alguma.”

A palavra que sustenta tudo é “ainda”, e ela aparece duas vezes. Zaratustra não afirma que o caos seja bom nem que deva ser cultivado. Afirma que aquela multidão ainda o possui, e a formulação carrega o mesmo tom de quem avisa que um prazo está correndo. A frase seguinte confirma: chega o tempo em que ninguém mais dará à luz estrela nenhuma. Não é elogio, é contagem regressiva.

O que Nietzsche anuncia em seguida tem nome dentro da obra dele. É o último homem, figura que ele constrói como oposto do além-do-homem e que descreve como avessa ao conflito, obcecada por segurança e conforto. O último homem pergunta o que é amor, o que é criação, o que é anseio, o que é estrela, e pisca ao perguntar, porque as palavras perderam referência para ele. Diz ter inventado a felicidade. É a essa criatura que a passagem se opõe, e o caos aparece ali como a última coisa que ainda a separa dela.

Vale registrar também de quem é a fala. Zaratustra é personagem, e o livro é escrito em forma de narrativa, não de tratado. Isso não afasta Nietzsche do que está sendo dito, já que Zaratustra funciona como porta-voz dele em boa medida, mas evita tratar a frase como sentença isolada de um manual. Ela é discurso, dirigido a uma plateia específica, dentro de uma cena que termina mal: a multidão ri e pede que o orador lhes dê justamente o último homem.

Restituído o contexto, a frase fica menos confortável e mais interessante. Ela não diz que a sua desordem interior é um talento. Diz que a capacidade de produzir algo novo depende de não ter tudo resolvido, e que essa capacidade pode ser perdida, e que perdê-la é exatamente o destino que Nietzsche temia. A leitura popular usa a frase como permissão. O texto a usa como alarme.

Frase do dia da Filosofia: ‘O valor de uma pessoa é medido pela quantidade de solidão que ela consegue suportar’ – a reflexão inspirada na obra de Nietzsche sobre independência

Fonte Original | NSC Total

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