Conhecida como ‘Chernobyl paulistana’, antiga fábrica em São Paulo nasceu da ambição nuclear dos anos 1940

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Conhecida como 'Chernobyl paulistana', antiga fábrica em São Paulo nasceu da ambição nuclear dos anos 1940

Em um terreno que hoje abriga edifícios residenciais no Brooklin, bairro da zona sul de São Paulo, funcionou uma fábrica que participou dos primeiros esforços do Brasil para dominar tecnologias nucleares. Criada nos anos 1940, a Orquima processava minerais estratégicos, mas sua trajetória acabaria marcada por denúncias de exposição à radiação e disputas trabalhistas.

O antigo complexo, conhecido posteriormente como Usina Santo Amaro, ganhou o apelido de “Chernobyl paulistana”. A comparação remete aos riscos da radioatividade, embora a instalação brasileira não tenha sofrido uma explosão nuclear como a registrada na Ucrânia, em 1986.

A história começou durante a Segunda Guerra Mundial, quando o domínio de materiais radioativos despertava interesse de governos e empresas.

A ambição nuclear brasileira

Fundada em 1942, a Orquima Indústrias Químicas Reunidas surgiu em um momento em que o Brasil procurava desenvolver conhecimentos e tecnologias relacionados à exploração de minerais estratégicos.

Um dos principais interesses estava na areia monazítica, encontrada em áreas do litoral brasileiro. O material contém elementos de terras raras, utilizados em diferentes atividades industriais, além de substâncias radioativas.

Em 1946, a empresa começou a industrializar essas areias. Na década seguinte, o interesse do governo brasileiro pelo setor ganhou força.

Em 1951, foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas, o CNPq. Um ano depois, a Orquima recebeu um contrato governamental para refinar monazita.

A atividade envolvia processos químicos capazes de separar componentes minerais e produzir materiais que poderiam ser aproveitados industrialmente.

O perigo estava no processamento

Entre os elementos presentes na monazita estão o tório e o urânio, substâncias que exigem procedimentos específicos de proteção durante determinadas etapas de processamento.

Na fábrica paulistana, a separação desses materiais também gerava resíduos. Um deles ficou conhecido como “torta II”, subproduto que concentrava elementos radioativos.

Com o passar dos anos, o acúmulo de materiais se tornou um problema para a empresa. As dificuldades econômicas e as restrições legais à comercialização de substâncias radioativas complicavam a destinação dos resíduos.

Ao mesmo tempo, as condições de trabalho começaram a despertar preocupações.

Relatos de antigos funcionários apontaram a ausência de equipamentos adequados de proteção individual. Alguns trabalhadores utilizavam apenas macacões e chegavam a levar os uniformes para lavar em casa, junto com as roupas da família.

Essa rotina levantou questionamentos sobre o risco de exposição ocupacional e de transporte de partículas contaminadas para fora das instalações.

Denúncias de contaminação

Décadas depois da fundação, a fábrica passou por mudanças administrativas e foi incorporada à estrutura estatal do setor nuclear. A instalação ficou associada à Nuclemon, empresa responsável pelo processamento de minerais e compostos de terras raras.

Os problemas relacionados à segurança ganharam maior visibilidade no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990.

Ex-funcionários relataram problemas de saúde e passaram a cobrar acompanhamento médico. Entre as doenças mencionadas estavam casos de câncer, associados pelos trabalhadores à exposição durante a atividade profissional.

As preocupações chegaram ao poder público. Em 1991, uma Comissão Parlamentar de Inquérito investigou as condições da instalação.

As apurações identificaram falhas relacionadas à proteção radiológica e ao armazenamento de rejeitos.

O fechamento da fábrica

Em 1992, a Usina Santo Amaro encerrou suas atividades, após décadas de funcionamento. A desativação ocorreu em um contexto de dificuldades econômicas e questionamentos sobre a segurança da instalação.

O prédio foi demolido no ano seguinte. Posteriormente, o terreno recebeu construções residenciais.

A transformação da área, entretanto, não encerrou os conflitos relacionados à antiga atividade industrial.

Ex-empregados continuaram reivindicando assistência médica e indenizações. A mobilização envolveu processos judiciais, negociações com representantes das Indústrias Nucleares do Brasil e pedidos de reconhecimento dos possíveis danos à saúde.

A discussão também passou a incluir o acompanhamento de trabalhadores mesmo depois do encerramento do vínculo empregatício.

Um passado que permanece

O destino da antiga Orquima mostra como uma iniciativa associada ao desenvolvimento científico e industrial brasileiro também deixou questionamentos sobre segurança ocupacional e responsabilidade ambiental.

O caso exige uma distinção importante: a existência de denúncias históricas de contaminação não permite, por si só, concluir que os moradores dos imóveis construídos posteriormente estejam expostos a riscos atualmente. Essa avaliação depende de análises e informações dos órgãos responsáveis.

O edifício de fachada rosa desapareceu da paisagem paulistana. Permaneceram os registros da primeira fase da indústria nuclear brasileira e as reivindicações de pessoas que trabalharam na instalação.

Fonte Original | NSC Total

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