A tela tem 142 centímetros de cada lado e ocupa uma parede do Museu do Louvre. Nela, uma mulher nua segura uma carta, com o olhar baixo. Rembrandt terminou a pintura em 1654.
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Na mama esquerda da figura, há uma alteração na pele, com uma área que se estende em direção à axila. Esse detalhe, pintado há quase 400 anos, rendeu artigos em revistas de cirurgia, de hematologia e de medicina vascular.
A obra é “Betsabé com a carta de David”, que retrata a personagem bíblica recebendo a mensagem do rei. A modelo é tradicionalmente apontada como Hendrickje Stoffels, companheira do pintor, que teria 28 anos à época.
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ToggleA hipótese que começou tudo
O debate não é recente. Em 1983, os pesquisadores Braithwaite e Shugg publicaram no periódico da Royal College of Surgeons of England uma análise da deformidade visível na tela.
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Desde então, a pintura passou a ser citada em estudos que procuram representações de doenças em obras de arte, e o câncer de mama localmente avançado virou a leitura mais divulgada.
Rembrandt ajuda a sustentar esse tipo de investigação por um motivo específico: ele pintava o que via, incluindo rugas, manchas e assimetrias que outros pintores da época corrigiam.
O problema dos nove anos
Há uma objeção que costuma ficar de fora das versões resumidas da história, e ela é decisiva.
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Hendrickje Stoffels não morreu logo depois. Ela viveu mais nove anos, até 1663. Um câncer de mama localmente avançado no século XVII, sem qualquer tratamento disponível, dificilmente permitiria essa sobrevida.
Foi esse o argumento apresentado por R. G. Bourne em artigo publicado no Australian and New Zealand Journal of Surgery, em 2000, questionando diretamente o diagnóstico póstumo.
Quatro explicações, nenhuma confirmada
Com o câncer posto em dúvida, outras hipóteses foram propostas ao longo das décadas.
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Uma delas é abscesso causado por tuberculose. Outra é mastite de lactação após uma gestação malsucedida, possibilidade reforçada por um dado biográfico: Hendrickje deu à luz em outubro de 1654, o mesmo ano do quadro.
A explicação mais recente veio em 2020. Paolo Zamboni, professor de cirurgia vascular da Universidade de Ferrara, na Itália, propôs no Journal of Thrombosis and Haemostasis que se trata de tromboflebite de uma veia superficial da mama, condição descrita em 1939 e conhecida como doença de Mondor.
O argumento dele tem um elemento que os anteriores não tinham. Zamboni apresentou o caso de uma paciente com aparência semelhante, confirmada por ultrassom, cuja mamografia foi negativa para câncer e para mastite.
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E se o corpo não for dela
Existe ainda uma objeção que vem da história da arte, e que atinge a base de toda a discussão médica.
O historiador Eric Jan Sluijter sustenta que a figura não é um retrato de Hendrickje, mas um tipo idealizado que Rembrandt reutilizou durante anos. Há também uma hipótese de que a cabeça dela tenha sido pintada sobre o corpo de outra modelo, e exames de raios X que mostram a cabeça repintada são compatíveis com essa leitura.
Se o corpo não é o de Hendrickje, o debate perde seu ponto de apoio. Não há paciente, não há prontuário, e a sobrevida de nove anos deixa de ser relevante.
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O que uma pintura não faz
A discussão é um bom exercício de observação e um mau atalho para diagnóstico. Uma tela do século XVII não é exame de imagem, e quatro hipóteses médicas concorrentes para a mesma mancha são a prova disso.
Em outubro, mês de campanha de conscientização sobre o câncer de mama no Brasil, vale registrar o que de fato serve de alerta. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, os sinais a observar são:
- caroço fixo e endurecido, geralmente indolor, que é a principal manifestação da doença
- alterações no mamilo
- saída espontânea de líquido por um dos mamilos
- pequenos nódulos no pescoço ou nas axilas
- pele da mama avermelhada ou com aspecto de casca de laranja
O instituto recomenda que mulheres de 50 a 69 anos tenham acesso à mamografia de rastreamento a cada dois anos, e orienta procurar o posto de saúde mais próximo diante de qualquer uma dessas alterações.



