Quase toda conversa sobre amor começa por uma pergunta errada. As pessoas querem saber se a outra gosta delas. Querem saber se a relação vai ter futuro e se aquela pessoa é a certa. Podem passar meses avaliando essa escolha e não gastam nem um minuto pensando no que fazer depois. Fazem um exame rigoroso sobre os candidatos e nenhum em quem está examinando.
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Erich Fromm escreveu um livro inteiro em cima dessa inversão. O psicanalista alemão publicou “A Arte de Amar” em 1956. Amor, para ele, é uma arte no sentido antigo, ou seja, uma prática que se aprende, se erra, se melhora, se pratica, como uma marcenaria. Ninguém espera sair tocando violino por ter encontrado apenas o violino certo.
O amor é a preocupação ativa pela vida e pelo crescimento daquilo que amamos.
Cada palavra da definição carrega peso. “Ativa” exclui a admiração parada, que acompanha a vida do outro sem fazer nada por ela. “Pelo crescimento” exclui o afeto que precisa do outro pequeno para se sentir necessário, e é por isso que amor e posse aparecem tanto juntos e têm tão pouco em comum. E “daquilo que amamos”, no lugar de “de quem amamos”, é escolha deliberada: é a mesma capacidade aplicada a filho, parceiro, amigo e trabalho. Na análise dele, essa capacidade se sustenta em quatro elementos, que são cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Nenhum dos quatro acontece por acaso.
A definição explica situações que a linguagem comum trata mal. O casal que se ama e não consegue ficar junto costuma ter sentimento de sobra e prática de menos. O pai que se orgulha do filho e nunca perguntou o que ele quer admira, não conhece. O amigo que aparece na crise e desaparece na rotina está disponível, não presente. Em todos os casos o sentimento existe. O que falta é o verbo.
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Nada disso autoriza a conclusão mais tentadora, a de que basta esforço. A frase não diz que toda relação se salva com dedicação, não diz que quem foi deixado não se dedicou o bastante e não transforma amor em projeto de desempenho. Também não serve de argumento para insistir onde já não há reciprocidade, porque cuidado sem resposta é desgaste, não virtude, e Fromm tratava respeito como elemento, não detalhe. Quando a relação passa a produzir sofrimento persistente, medo ou controle, o caminho não é tentar com mais força, é procurar apoio profissional.
Fromm não prometia um método de ser amado. Ele propunha trocar uma pergunta por outra, menos confortável. Em vez de perguntar se você encontrou a pessoa certa, pergunte o que você andou fazendo, nesta semana, pela vida e pelo crescimento de quem já está do seu lado.
Frase do dia da Psicologia: “É impressionante como elementos que parecem insolúveis se tornam solúveis quando alguém escuta” – a reflexão de Carl Rogers sobre escuta.



