O bebê chora quando a mãe sai da sala. O irmão de quatro anos, que estava brincando no canto, larga o brinquedo, vai até ele e começa a fazer careta. O bebê para de chorar. Ninguém ensinou nenhum dos dois a fazer isso.
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Anos depois, o mais novo não vai lembrar da cena. Mas vai ligar para o mais velho antes de ligar para qualquer outra pessoa quando alguma coisa der errado.
É esse tipo de vínculo que a frase resume: “Há vínculos que começam antes mesmo de entendermos o que significa amar alguém; para muitas pessoas, um irmão é um deles”. Ela não é de John Bowlby, mas nasce da teoria que ele construiu.
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ToggleQuem foi John Bowlby?
Bowlby nasceu em 26 de fevereiro de 1907, em Londres, numa família de classe alta em que as crianças eram criadas por babás e viam os pais pouco. Formou-se em medicina, especializou-se em psiquiatria e psicanálise e passou a carreira na Tavistock Clinic, em Londres, segundo a Encyclopaedia Britannica.
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Em 1951, escreveu para a Organização Mundial da Saúde o relatório Cuidados maternos e saúde mental, sobre crianças separadas das famílias na guerra. Entre 1969 e 1980, publicou a trilogia Apego e perda, base da teoria do apego. Morreu em 2 de setembro de 1990, na ilha de Skye, na Escócia.
Para Bowlby, o apego não é um sentimento aprendido, e sim um sistema biológico: o bebê nasce programado para buscar proximidade com quem cuida dele, porque isso garantia sobrevivência. Chorar, agarrar, sorrir e seguir são comportamentos desse sistema, que se ativa quando a criança sente medo ou se vê sozinha.
A figura de apego, no modelo original, é quem responde a esses sinais com regularidade, em geral a mãe. Bowlby chamou essa pessoa de “base segura”: o ponto de onde a criança sai para explorar o mundo e para onde volta quando algo assusta.
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O ponto central para a frase é este: o apego se forma no primeiro ano de vida, muito antes de a criança ter qualquer ideia do que é amar. O vínculo vem primeiro; o entendimento, anos depois.
O irmão pode ser figura de apego?
Bowlby escreveu pouco sobre irmãos. Quem testou a hipótese foi Robert Stewart, em 1983, numa adaptação da “situação estranha”, o experimento criado por Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby. Stewart deixou bebês em uma sala com o irmão mais velho, em idade pré-escolar, e retirou a mãe. Em uma parte considerável dos pares, o mais velho fez exatamente o que uma figura de apego faz: aproximou-se, consolou, distraiu, e o bebê aceitou o consolo.
Judy Dunn, que acompanhou famílias inglesas nos primeiros anos após o nascimento de um segundo filho, observou o mesmo em casa: irmãos que se tornam referência emocional um do outro antes de saberem falar direito. Alguns padrões aparecem nesse tipo de pesquisa:
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- O irmão é figura de apego secundária: não substitui os pais, mas entra na lista de quem a criança procura.
- O vínculo é mais forte quando os pais estão menos disponíveis: o mais velho ocupa espaço que ficou vago.
- A proximidade de idade ajuda: irmãos com poucos anos de diferença dividem mais rotina e mais medo.
- O apego convive com o ciúme: a mesma pesquisa de Dunn mostra que afeto e rivalidade aparecem juntos.
O que a frase não significa?
Não significa que todo irmão é um vínculo seguro. A teoria do apego descreve também vínculos ansiosos e evitativos, e a relação entre irmãos pode ser qualquer um deles. Há irmãos que foram fonte de medo, não de segurança, e a frase não fala deles.
Também não significa que o vínculo é permanente por ser antigo. Bowlby dizia que os padrões de apego tendem a durar, mas podem mudar com a experiência. Irmãos que foram tudo um para o outro aos cinco anos podem não se falar aos quarenta, e isso não anula o que houve, mas não o garante.
Mas a frase é de Bowlby?
Não. É uma síntese de redação, inspirada na teoria do apego, e é assim que deve ser lida. Bowlby não escreveu essa frase nem tratou irmãos como tema central. O que ele deixou foi a estrutura: vínculos formados antes da linguagem, um sistema que busca segurança e uma “base segura” de onde se sai e para onde se volta. Aplicar isso a irmãos foi trabalho de quem veio depois, como Stewart e Dunn.
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Por que essa reflexão continua atual?
Os irmãos são, em geral, a relação mais longa da vida de uma pessoa: começam antes dos amigos e dos parceiros e costumam durar mais do que a relação com os pais. Ainda assim, é a que menos se cuida, porque parece dada.
A pergunta que fica é simples e incômoda: quando foi a última vez que você tratou o seu irmão como um vínculo que precisa de manutenção, e não como uma parte da paisagem que sempre vai estar lá?
Você pode gostar de ver também que a psicologia explica por que pessoas que hesitam em reencontrar velhos amigos não são frias ou desinteressadas, muitas podem estar tratando quem já foi íntimo como um estranho.



