Toda vida, olhada de trás para frente, admite um balanço. O que se construiu, o que ficou, o que se deixa para alguém. É o tipo de conta que costuma ser feita em elogio fúnebre, sempre fechando no azul.
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O escritor brasileiro Machado de Assis (1839 a 1908) fez essa conta fechar de outro jeito:
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
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ToggleOnde a frase foi escrita
É a última frase de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, publicado em 1881, primeiro em folhetim na Revista Brazileira e depois em livro.
O romance é narrado por um homem já morto, que conta a própria vida sem a obrigação de sair bem na foto. Brás Cubas atravessa o livro sem trabalho, sem obra, sem vínculo que se sustente, com um amor adúltero que termina em nada e um projeto de emplastro que nunca sai do papel.
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O último capítulo se chama “Das Negativas”. Nele, o narrador soma o que não teve: não alcançou celebridade, não teve o emplastro, não conheceu a felicidade conjugal. E fecha com a linha acima.
A frase costuma ser lida como amargura de um homem que falhou. É mais estranha que isso.
Brás Cubas apresenta a ausência de filhos como saldo positivo. É a única coisa da lista que ele computa a favor. Ter falhado em tudo o mais é registrado como perda; não ter passado adiante a existência humana é registrado como ganho.
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Ou seja, a conta não fecha em zero por acaso. Ela fecha em zero porque o narrador considera a própria vida uma coisa que seria melhor não repassar. O livro que parecia uma sátira de costumes termina como uma avaliação da vida em si, e não passa.
E há a camada que só existe porque quem fala está morto: o balanço é definitivo. Não sobra a possibilidade de reviravolta que qualquer autobiografia de vivo mantém aberta.
O que Machado não está dizendo
Duas leituras equivocadas circulam com a frase.
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A primeira a lê como posição do autor sobre ter filhos, como se Machado estivesse recomendando algo. Brás Cubas é um narrador construído para ser pouco confiável, vaidoso e cínico, e o livro inteiro funciona pela distância entre o que ele diz e o que o leitor conclui. A frase é dele, não do autor.
A segunda a transforma em melancolia elegante, boa para legenda. O texto é mais frio: não é tristeza pelo que faltou, é a contabilidade de alguém que decidiu que o produto não valia a fabricação.
Por que continua sendo citada
Cento e quarenta anos depois, a linha aparece em provas, resenhas e discussões sobre o pessimismo machadiano.
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O que ela pede não é comoção. É que o leitor refaça a conta com os próprios itens, e veja em qual coluna cada um cai.
Fonte primária: ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo CLX, “Das Negativas”. Publicado em 1881. Domínio público.
A lição de Machado de Assis sobre o tempo: “O salto é grande mas o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo”



