Poucas frases de psiquiatria circulam tanto quanto esta, e poucas são tão facilmente usadas contra quem as recebe. Ela aparece em legenda sobre luto, em conversa com quem está doente, em conselho a quem passa por separação ou desemprego. A intenção de quem compartilha costuma ser boa. O efeito, quando a frase chega sozinha, pode ser o oposto: sugerir a alguém que a dor pela qual está passando teria uma função, e que caberia a essa pessoa descobri-la.
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Viktor Frankl era psiquiatra austríaco e sobreviveu a campos de concentração nazistas. Escreveu “Em Busca de Sentido” a partir dessa experiência, e a tese central da obra é que o ser humano suporta quase qualquer condição quando enxerga um sentido na própria vida. É desse argumento que a frase faz parte.
De certo modo, o sofrimento deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um significado, como o significado de um sacrifício.
O que quase nunca acompanha a citação é a condição que Frankl impôs a ela, em outro trecho do mesmo livro. Ele afirma, de forma direta, que de modo algum o sofrimento é necessário para encontrar sentido. Diz que apenas insiste em que o sentido continua possível apesar do sofrimento, desde que esse sofrimento seja inevitável. E acrescenta que, sendo evitável, o que faz sentido é remover a causa, seja ela psicológica, biológica ou política. Fecha registrando que sofrer desnecessariamente é masoquista, e não heroico.
A palavra decisiva, portanto, é inevitável. E a diferença que ela produz é prática. Uma doença incurável, uma perda já ocorrida, uma limitação permanente: são situações que não admitem remoção da causa, e é sobre elas que a frase fala. Um casamento violento, um ambiente de trabalho adoecedor, uma dívida negociável, um quadro de saúde tratável: nesses casos, o próprio Frankl aponta o caminho oposto, que é agir sobre a causa em vez de procurar sentido na permanência. Ele nomeia inclusive as três frentes possíveis dessa ação, entre elas a política.
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Vale registrar também o que ele não afirma. Não afirma que o sofrimento seja bom, nem que produza crescimento automático, nem que quem não encontra sentido tenha falhado em algo. A formulação diz que o sofrimento pode deixar de operar como sofrimento puro quando ganha significado, e usa o sacrifício como exemplo justamente porque o sacrifício é escolhido. Nada disso funciona como obrigação, e menos ainda como cobrança de terceiros.
Restituída a condição, a frase muda de função. Ela deixa de ser uma resposta pronta para oferecer a quem está sofrendo e passa a ser uma distinção a fazer antes de qualquer conversa: esse sofrimento pode ser removido? Se puder, a tarefa é removê-lo. Se não puder, aí sim existe a pergunta que Frankl propõe, e ela pertence apenas a quem está passando por aquilo. Em qualquer dos dois casos, quando o sofrimento é persistente, quem ajuda é um profissional de saúde mental.
Você pode gostar de ver também que Viktor Frankl disse: “A última das liberdades humanas é escolher a própria atitude diante de qualquer conjunto de circunstâncias” – a frase que ele escreveu depois de Auschwitz.



