Na tela do coordenador de marketing Rafael Vital, o navegador é um mosaico de plataformas de (ou com) inteligência artificial (IA). Gemini para pesquisas, Claude para análise de dados, Lovable para dashboards e Canva para vídeos. A cena, descrita pelo coordenador ao Olhar Digital, ilustra o fim de uma ilusão: a “IA única corporativa”. A tentativa da diretoria de padronizar apenas um assistente falhou no cotidiano das empresas porque cada área exige especializações que uma só ferramenta não entrega.
No entanto, essa estratégia híbrida cobra o seu preço. Literalmente. Enquanto funcionários pulam de plataforma em plataforma para produzir mais, a TI enfrenta o “lado B” dessa salada: contas estouradas com licenças duplicadas, tokens invisíveis e um risco crítico de segurança. Para você ter ideia, há casos de assistentes autônomos de IA que apagaram bancos de dados inteiros.
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ToggleA conta da ‘salada das IAs’
A distribuição desenfreada de licenças é o primeiro gatilho para o estouro orçamentário nas empresas. O CEO da 10K Digital, Felipe Matos, aponta que a falta de planejamento faz a tecnologia gerar custos antes de entregar valor.
“Já vimos empresas distribuindo licenças de IA indiscriminadamente para praticamente toda a equipe”, conta o executivo, em entrevista ao Olhar Digital. “Depois de alguns meses, o custo com assinaturas e consumo de tokens aumentou significativamente, mas sem um ganho de produtividade que justificasse esse investimento.”
A conta fica ainda mais pesada quando as aplicações saem da fase de testes e passam a operar na rotina real do negócio. O custo de processamento de dados, cobrado por volume de uso, pega muitos gestores de surpresa quando o projeto ganha escala.
Juliana Velozo, vice-presidente sênior da Thoughtworks para a América Latina, explica que a imprevisibilidade financeira vem das mudanças nas regras das próprias fornecedoras de tecnologia. “O custo de token estava e ainda está sendo muito subsidiado. Então, sempre que a empresa muda a política comercial você fica suscetível a receber uma cobrança que não havia previsto porque aquele modelo comercial foi alterado ali no meio do caminho”, explica a especialista, em entrevista ao Olhar Digital.
Para evitar o desperdício, a recomendação dos especialistas é abandonar a ideia de dar as ferramentas mais caras para todos os colaboradores. O caminho sustentável exige analisar quais setores realmente convertem tecnologia avançada em resultados práticos.
Matos defende a distribuição de recursos proporcional ao retorno entregue por cada área. “A pergunta não é quanto custa a licença, mas quanto valor ela gera”, diz o CEO. “Em geral, faz sentido concentrar ferramentas mais avançadas nas lideranças e em profissionais que realmente extraem valor delas, como equipes de engenharia de software.”
Na área de Tecnologia da Informação, por exemplo, o custo mais alto de uma ferramenta especializada costuma se pagar rapidamente. O gestor de TI Alexandre Júnior argumenta que a discussão com a diretoria sobre assinaturas caras deve ser resolvida com métricas objetivas de tempo economizado. Segundo ele, quando o cálculo considera o valor da hora de um profissional técnico, o investimento numa IA voltada para programação deixa de ser visto como despesa.
O raciocínio, segundo o gestor, é o seguinte: “Considere uma licença de IA especializada em código que custe R$ 100 a mais por mês para um desenvolvedor pleno. Se essa ferramenta poupar oito horas semanais na resolução de bugs ou escrita de testes, o investimento se paga logo no início da primeira semana – em apenas um dia e duas horas de trabalho. O restante do tempo economizado no mês converte-se em puro lucro.”
O ‘lado B’
A pressão por entregas rápidas faz com que muitos funcionários usem ferramentas de IA por conta própria, ignorando as regras de segurança corporativa. O hábito de tratar dados sigilosos em plataformas públicas expõe a empresa ao risco de ter suas informações assimiladas pelos sistemas dos fornecedores.

Alexandre Júnior alerta para a imaturidade das políticas corporativas ao lidar com essa prática. “Embora eu não possa expor um caso específico por questões de ética e confidencialidade, é alarmante a frequência com que profissionais de diversas áreas inserem dados estratégicos – ou até informações sensíveis à soberania nacional – em ferramentas públicas como o ChatGPT”, conta o gestor de TI. “O risco imediato é que as versões gratuitas dessas plataformas utilizam os dados inseridos para treinar e aprimorar seus próprios modelos”, avisa Júnior.
Fazer diferentes IAs conversarem com os sistemas internos da empresa traz um desafio técnico ainda maior: o controle de acesso. Se um assistente digital recebe permissões elevadas para buscar documentos no e-mail ou nos bancos de dados, qualquer falha abre uma brecha crítica na infraestrutura.
O gestor de TI cita um episódio real para ilustrar o perigo de conceder autonomia excessiva a essas ferramentas. “Em abril de 2026, veio a público o caso de uma empresa onde um assistente autônomo baseado no Claude, ao tentar corrigir um erro de incompatibilidade de credenciais de forma independente, acabou deletando a base de dados de produção e os backups recentes.”

Além das brechas de segurança, a falta de padronização cria ilhas de informação dentro da empresa. Os dados gerados num assistente nem sempre conversam com os arquivos salvos na nuvem corporativa. Para superar essa barreira, especialistas consultados pela reportagem apontam que as equipes de TI precisam trabalhar de forma integrada com as áreas de negócios.
Juliana Velozo, por exemplo, ressalta que essa conexão é essencial para alinhar a escolha das ferramentas às necessidades reais da operação. “A área de negócios tem noção do negócio. A área de tecnologia muitas vezes não tem – ou não na profundidade que precisa. E a área de negócios não sabe que tipo de tecnologias eu posso utilizar para redesenhar o meu processo e utilizar das capacidades para que esse custo de investimento em tecnologia pague o potencial impacto”, pontua a especialista.
No fim das contas, a coexistência de múltiplas IAs só se torna um problema operacional quando a empresa ignora os pilares da governança de dados. Ter regras claras sobre quem pode acessar cada informação é o que previne o vazamento de dados e o caos de integração.
Felipe Matos pontua que o controle depende da maturidade da gestão. E não da tecnologia escolhida. “Quando existem políticas bem definidas, regras claras sobre quais dados podem ser utilizados e mecanismos de controle de acesso, o uso de múltiplas IAs deixa de ser um problema tecnológico e passa a ser apenas mais um componente da estratégia digital da empresa”, conclui o CEO da 10K Digital.
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Fonte Original | Notícias – Olhar Digital



