Uma análise inédita de um cérebro humano após a morte indicou que o aducanumab, medicamento experimental contra a doença de Alzheimer, não conseguiu agir de forma uniforme em todas as regiões cerebrais. O estudo, publicado no último domingo (12) na revista JAMA, acompanhou o caso de um paciente que recebeu o tratamento durante 4,5 anos.
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A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, a partir da autópsia de um homem com comprometimento cognitivo leve que participou de um ensaio clínico. Os pesquisadores compararam imagens e análises do cérebro antes e depois da terapia para entender seus efeitos.
Os resultados apontaram que algumas áreas apresentaram redução de placas de beta-amiloide e menor acúmulo de proteína tau, enquanto outras permaneceram com sinais associados à progressão do Alzheimer. A descoberta ajuda a explicar por que medicamentos voltados a essas estruturas apresentam resultados inconsistentes entre pacientes.
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ToggleCérebro tratado revela ação desigual contra marcas do Alzheimer
O caso analisado chamou a atenção porque permitiu observar, em um mesmo cérebro, regiões que responderam ao medicamento e outras que não apresentaram o mesmo efeito. Essa diferença ofereceu aos pesquisadores uma oportunidade rara de avaliar como a retirada da proteína beta-amiloide se relaciona com outras alterações ligadas à doença.
O paciente recebeu 30 doses de aducanumab ao longo de quatro anos e meio. Quatro anos após a última aplicação, ele morreu, e sua família autorizou a doação do cérebro para pesquisas científicas. O material foi então comparado com cérebros de pessoas com demência que não haviam recebido o medicamento.
A avaliação pós-morte mostrou que as camadas mais superficiais do cérebro tinham menos placas de beta-amiloide, enquanto regiões mais profundas do córtex ainda apresentavam grande quantidade desse material. Para os pesquisadores, esse padrão sugere que o medicamento pode não ter alcançado todas as áreas necessárias para produzir um efeito amplo.
De acordo com os cientistas responsáveis pelo estudo, as regiões com menor quantidade de beta-amiloide também apresentaram menos emaranhados de tau e menor perda de tecido cerebral. Essa associação reforçou a hipótese de que a remoção das placas pode interferir no avanço de outros processos relacionados à degeneração dos neurônios.
“O caso representou uma situação rara em que algumas regiões eliminaram a amiloide e outras não. Isso permitiu comparar diretamente o que aconteceu depois em áreas vizinhas e compreender melhor a relação entre amiloide, tau e neurodegeneração”, afirmou Edward Lee, neuropatologista da Universidade da Pensilvânia e um dos pesquisadores envolvidos na análise, em entrevista ao jornal da universidade.
Segundo David Wolk, neurologista e diretor do Centro de Pesquisa da Doença de Alzheimer da Universidade da Pensilvânia, a observação simultânea dos diferentes padrões no mesmo cérebro trouxe evidências importantes sobre o impacto das terapias contra a beta-amiloide.
“Os achados fornecem algumas das evidências humanas mais claras até agora de que terapias contra a amiloide podem limitar o acúmulo de tau e retardar alterações cerebrais que levam à perda de memória e ao declínio cognitivo”, declarou Wolk.
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Apesar dos sinais positivos encontrados nesse caso específico, os próprios pesquisadores ressaltam que se trata de apenas um paciente. O Alzheimer apresenta grande diversidade entre indivíduos, e uma única autópsia não é suficiente para determinar a eficácia geral de uma estratégia terapêutica.
O aducanumab já havia provocado controvérsia antes mesmo dessa análise. Em 2021, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos aprovou o tratamento de forma acelerada, decisão que recebeu críticas por depender de resultados considerados ainda limitados. Posteriormente, em 2024, a fabricante Biogen encerrou a produção do medicamento para concentrar recursos em outras iniciativas relacionadas ao Alzheimer.
A discussão sobre o papel das placas de beta-amiloide continua dividindo especialistas. Enquanto alguns pesquisadores defendem que eliminar essa proteína em fases iniciais pode reduzir danos futuros, outros argumentam que ela pode ser apenas uma consequência da doença, e não necessariamente a causa principal do declínio cognitivo.
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Uma revisão envolvendo 17 ensaios clínicos e mais de 20 mil participantes, citada no estudo, indicou que medicamentos contra a beta-amiloide não apresentaram benefícios clinicamente relevantes em pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pelo Alzheimer.
Para Christopher Brown, neurologista e principal autor da pesquisa, o resultado não elimina a possibilidade de a beta-amiloide continuar sendo um alvo importante. A hipótese levantada pelo estudo é que o momento do tratamento pode ser decisivo, já que essa proteína pode surgir no cérebro muitos anos antes dos sintomas aparecerem.
“Este caso sugere que remover a amiloide cedo pode ajudar a limitar as mudanças que acabam prejudicando as células cerebrais”, avaliou Brown, neurologista responsável pelo trabalho publicado na JAMA.
Novos estudos deverão indicar se intervenções iniciadas antes do surgimento dos sintomas conseguem produzir efeitos mais significativos. Enquanto isso, a análise do cérebro do paciente permanece como uma evidência importante para compreender por que alguns tratamentos alcançam determinadas regiões cerebrais e falham em outras.
Wagner Edwards
Wagner Edwards é Bacharel em Jornalismo e atua como Analista de SEO e de Conteúdo no Olhar Digital. Possui experiência, também, na redação, edição e produção de textos para notícias e reportagens.
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Fonte Original | Notícias – Olhar Digital



