“A vida, tal como a encontramos, é demasiado difícil para nós; traz-nos demasiadas dores, decepções e tarefas impossíveis”

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Frase Sigmund Freud

A frase circula sozinha e soa como desabafo. Um dos maiores pensadores do século 20 admitindo que a vida é pesada demais, e ponto final. É uma leitura possível, e é a que rende compartilhamento. Só que no livro ela não termina ali. Ela é a primeira metade de uma sentença, e a segunda metade transforma a queixa em outra coisa.

O contexto é o segundo capítulo de “O Mal-Estar na Civilização”, publicado em 1930, quando Freud tinha 74 anos e investigava por que a vida em sociedade produz tanto desconforto. A pergunta do capítulo não é se a vida é difícil, que ele toma como dado. É o que as pessoas fazem a respeito.

A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas.

A palavra que muda tudo é paliativa. Ela não promete cura, e Freud sabe disso: paliativo é o que alivia sem resolver. Logo em seguida ele cita o escritor alemão Theodor Fontane, para quem não se passa sem construções auxiliares, e apresenta três tipos dessas construções.

O primeiro são os derivativos poderosos, que desviam a atenção do próprio sofrimento e fazem a pessoa encará-lo como menor. O exemplo que Freud dá é notável: Voltaire encerrando o “Cândido” com o conselho de cultivar o próprio jardim. Trabalho absorvente entra nessa categoria, e ele inclui ali a atividade científica, ou seja, o que ele próprio fazia.

O segundo são as satisfações substitutivas, e o exemplo é a arte. Freud é direto ao classificá-las como ilusões diante da realidade, e igualmente direto ao dizer que isso não as torna menos eficazes, porque a fantasia tem função real na vida mental. Ler um romance não resolve nada da vida de ninguém, e ainda assim funciona.

O terceiro são as substâncias tóxicas, que ele descreve como algo que age sobre a química do corpo e torna a pessoa insensível ao sofrimento. Freud o lista como os outros dois, sem condenação moral, e aqui vale uma separação que o texto de 1930 não faz e que hoje é obrigatória: os dois primeiros recursos são compatíveis com uma vida funcional, o terceiro não é. Dependência química é doença com tratamento disponível, e nada no argumento dele a torna uma escolha equivalente às outras duas.

O que a lista oferece, lida inteira, é menos consolo e mais mapa. Freud não afirma que os paliativos sejam fraqueza, e a palavra que ele usa é indispensável. A pergunta que o capítulo devolve ao leitor não é se ele usa alguma dessas medidas, porque todo mundo usa. É qual delas está sustentando a semana, e se ela é do tipo que permite continuar.

Você pode gostar também de ver Arthur Brooks, professor de Harvard: “As pessoas mais felizes são aquelas que nunca param de aprender” – o motivo importa mais que o hábito.

Fonte Original | NSC Total

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